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| Segunda-feira, 06 de
de 2006 |
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| Arthur
Dapieve Augusto Nunes Carla Rodrigues Guilherme Fiuza José Paulo Kupfer Leo Martins Marcos Caetano Marcos Sá Corrêa Mario Sergio Conti Paulo Roberto Pires Pedro Doria Ricardo A. Setti Ricardo Calil Ricardo Kotscho Roberto Benevides Sergio Bermudes Sérgio Rodrigues Tutty Vasques Villas-Bôas Corrêa Xico Vargas Zuenir Ventura A palavra é... .Comportamento Convidados Ensaio Entrevista Fala Leitor Galeria Impressões Digitais noblog Reportagem Sexo nas Bancas Weblog Busca avançada Quem somos NoMínimo Instale o feed de notícias O que é RSS? Nosso link em seu blog |
A ladainha do miserê
“Pegando no tranco: o Brasil do jeito que você nunca pensou”, publicado pela Senac Rio, foi escrito por Ricardo Neves. Chamá-lo de pesquisador é uma enorme simplificação. Neves foi por muitos anos consultor do Banco Mundial, da ONU, de governos, empresas e ONGs. Não um consultor do tipo fazedor de relatórios encomendados. Sempre foi, ele mesmo, uma espécie de ONG do pensamento, da estratégia e da ação. Nessas grandes instituições, quem quer um paper bonito, vazio e impressionante, daqueles que dão boas manchetes e se dissolvem em seguida, sabe que não pode chamar Ricardo Neves. No início dos anos 80, ele apareceu no Rio de Janeiro com uma entidade chamada Instituto de Tecnologia para o Cidadão. Era uma usina de diagnósticos e projetos para a melhoria do meio ambiente urbano, numa época que ecologia era cuidar de passarinho. Quase não foi levado a sério quando apresentou um plano de criação de uma rede de vias para bicicletas na megalópole carioca. As dezenas de quilômetros de ciclovias que compõem a estrutura urbana do Rio hoje nasceram na prancheta de Ricardo Neves. Andarilho, tagarela, teimoso e obcecado por soluções práticas para tudo, Neves tornou-se uma espécie de xiita do otimismo. É especialmente alérgico à distância entre dados acadêmicos e realidade. Foi nessa rota que acabou trombando com as estatísticas oficiais sobre a pobreza no Brasil e no mundo. Não trombou pelo prazer de trombar. Mas pela simples convicção de que diagnósticos tortos produzem soluções equivocadas, e diagnósticos apocalípticos produzem paralisia. E o negócio dele é ação. O Mapa da Fome, da Fundação Getúlio Vargas, é um dos alvos dos petardos de “Pegando no tranco”. Neves desmonta o índice de 60 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza sem condições suficientes de nutrição – produzido pela FGV e adotado como referência por instituições tão variadas como Banco Mundial, Nações Unidas, “The New York Times” e “The Economist”. É a conta do crioulo doido, feita a partir de declarações espontâneas sobre renda mensal, num país com mais da metade de trabalhadores na informalidade e sem vencimentos regulares. Um cruzamento com pesquisas de mercado, feitas a partir da aferição do consumo das famílias – informação bastante mais segura – revela uma gigantesca “melhoria de vida” do brasileiro. Fora o disparate metodológico das conclusões sobre subnutrição retiradas mecanicamente das tais declarações sobre renda. O mapa mundial das desigualdades também não fica de pé ante as análises de Ricardo Neves. Com sua experiência de andanças pelos corredores de governos e instituições multilaterais, ele mostra que a reunião de dados para produção do Índice de Desenvolvimento Humano pode até dar samba-enredo, mas tem pouco a ver com estatística. Na alegre mistura de dados, bananas e laranjas, produz-se algumas criaturas monstruosas com cara de bebê Johnson. Entre elas está o célebre ranking que colocou o Brasil abaixo de Serra Leoa em desigualdade. Ao lado de outros estupros metodológicos, a comparação dos dados cruzava o Brasil de 1998 com Serra Leoa de 1989. Um pequeno lapso de quase uma década. A cruzada de Neves contra o miserabilismo não tem nada a ver com dourar pílula ou síndrome de Poliana. “Pegando no tranco” tem mais de 100 páginas só de soluções e propostas estratégicas, que passam ao largo de possíveis classificações à direita ou à esquerda. O que o autor não tolera são os diagnósticos paralisantes, que acredita terem se tornado uma cultura, talvez devido ao apelo emocional, quase estético, do alarmismo. O que é bom para Hollywood não é necessariamente bom para as políticas sociais, indica. Entre os mitos analisados no livro está o da população de rua no Brasil. Em meados dos anos 80, a partir de um coquetel colhido em variadas fontes, formais e informais, a Unicef estimava haver 7 milhões de meninos de rua no Brasil. Logo o Consortium for Street Children, uma rede de ONGs para captação de recursos assistenciais no Reino Unido passou a trabalhar com o índice de 8 milhões. A rede de pastorais associadas à International Christian Organizations calculou em 12 milhões e, a partir de novas projeções, ONGs e imprensa internacional passaram a trabalhar com o número de 15 milhões de meninos de rua, quando a população nacional era de 150 milhões de habitantes – isto é, 10% dos brasileiros. No início dos anos 90, diante da profusão de entidades voltadas ao tema e da baixa eficiência no combate ao problema, alguns estudiosos, como Herbert de Souza, Betinho, do Ibase, resolveram colocar uma lupa sobre essa estatística. Surgiu uma força-tarefa de recenseadores para mapear as ruas e localidades onde os meninos se concentravam nas grandes cidades, e montaram-se operações de medição instantânea, com intervalo de poucas horas, para cobrir e fazer o levantamento de todas as áreas inventariadas. O pente-fino estatístico chegou ao número de cerca de 20 mil crianças de rua nas cidades brasileiras. Os outros 14.980.000 estavam apenas no imaginário dos homens de boa vontade. Para o eleitor que anda enjoado de conversa de marketeiro, pode estar aí uma boa semente para o verdadeiro debate em 2006. Empurrando um pouquinho, talvez ele pegue no tranco. fiuza@nominimo.ibest.com.br Receba os textos deste colunista por email
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