Segunda-feira, 06 de de 2006

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A ladainha do miserê

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08.02.2006 |  Se a opinião pública soubesse como são feitas as salsichas e os índices de medição da pobreza, pararia de consumi-los tão avidamente. O azar das estatísticas grandiloqüentes das Nações Unidas, da Fundação Getúlio Vargas, do IBGE e de outras catedrais da numerologia sociológica foi topar com um pesquisador chato e detalhista, que tem mania de correr mundo e só acreditar no que vê. Neste momento pré-eleitoral, em que o país tenta superar a miopia na forma de ver sua realidade e achar soluções para ela, é bom dar uma olhada num livro academicamente anárquico que acaba de sair.

“Pegando no tranco: o Brasil do jeito que você nunca pensou”, publicado pela Senac Rio, foi escrito por Ricardo Neves. Chamá-lo de pesquisador é uma enorme simplificação. Neves foi por muitos anos consultor do Banco Mundial, da ONU, de governos, empresas e ONGs. Não um consultor do tipo fazedor de relatórios encomendados. Sempre foi, ele mesmo, uma espécie de ONG do pensamento, da estratégia e da ação. Nessas grandes instituições, quem quer um paper bonito, vazio e impressionante, daqueles que dão boas manchetes e se dissolvem em seguida, sabe que não pode chamar Ricardo Neves.

No início dos anos 80, ele apareceu no Rio de Janeiro com uma entidade chamada Instituto de Tecnologia para o Cidadão. Era uma usina de diagnósticos e projetos para a melhoria do meio ambiente urbano, numa época que ecologia era cuidar de passarinho. Quase não foi levado a sério quando apresentou um plano de criação de uma rede de vias para bicicletas na megalópole carioca. As dezenas de quilômetros de ciclovias que compõem a estrutura urbana do Rio hoje nasceram na prancheta de Ricardo Neves.

Andarilho, tagarela, teimoso e obcecado por soluções práticas para tudo, Neves tornou-se uma espécie de xiita do otimismo. É especialmente alérgico à distância entre dados acadêmicos e realidade. Foi nessa rota que acabou trombando com as estatísticas oficiais sobre a pobreza no Brasil e no mundo. Não trombou pelo prazer de trombar. Mas pela simples convicção de que diagnósticos tortos produzem soluções equivocadas, e diagnósticos apocalípticos produzem paralisia. E o negócio dele é ação.

O Mapa da Fome, da Fundação Getúlio Vargas, é um dos alvos dos petardos de “Pegando no tranco”. Neves desmonta o índice de 60 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza sem condições suficientes de nutrição – produzido pela FGV e adotado como referência por instituições tão variadas como Banco Mundial, Nações Unidas, “The New York Times” e “The Economist”. É a conta do crioulo doido, feita a partir de declarações espontâneas sobre renda mensal, num país com mais da metade de trabalhadores na informalidade e sem vencimentos regulares. Um cruzamento com pesquisas de mercado, feitas a partir da aferição do consumo das famílias – informação bastante mais segura – revela uma gigantesca “melhoria de vida” do brasileiro. Fora o disparate metodológico das conclusões sobre subnutrição retiradas mecanicamente das tais declarações sobre renda.

O mapa mundial das desigualdades também não fica de pé ante as análises de Ricardo Neves. Com sua experiência de andanças pelos corredores de governos e instituições multilaterais, ele mostra que a reunião de dados para produção do Índice de Desenvolvimento Humano pode até dar samba-enredo, mas tem pouco a ver com estatística. Na alegre mistura de dados, bananas e laranjas, produz-se algumas criaturas monstruosas com cara de bebê Johnson. Entre elas está o célebre ranking que colocou o Brasil abaixo de Serra Leoa em desigualdade. Ao lado de outros estupros metodológicos, a comparação dos dados cruzava o Brasil de 1998 com Serra Leoa de 1989. Um pequeno lapso de quase uma década.

A cruzada de Neves contra o miserabilismo não tem nada a ver com dourar pílula ou síndrome de Poliana. “Pegando no tranco” tem mais de 100 páginas só de soluções e propostas estratégicas, que passam ao largo de possíveis classificações à direita ou à esquerda. O que o autor não tolera são os diagnósticos paralisantes, que acredita terem se tornado uma cultura, talvez devido ao apelo emocional, quase estético, do alarmismo. O que é bom para Hollywood não é necessariamente bom para as políticas sociais, indica.

Entre os mitos analisados no livro está o da população de rua no Brasil. Em meados dos anos 80, a partir de um coquetel colhido em variadas fontes, formais e informais, a Unicef estimava haver 7 milhões de meninos de rua no Brasil. Logo o Consortium for Street Children, uma rede de ONGs para captação de recursos assistenciais no Reino Unido passou a trabalhar com o índice de 8 milhões. A rede de pastorais associadas à International Christian Organizations calculou em 12 milhões e, a partir de novas projeções, ONGs e imprensa internacional passaram a trabalhar com o número de 15 milhões de meninos de rua, quando a população nacional era de 150 milhões de habitantes – isto é, 10% dos brasileiros.

No início dos anos 90, diante da profusão de entidades voltadas ao tema e da baixa eficiência no combate ao problema, alguns estudiosos, como Herbert de Souza, Betinho, do Ibase, resolveram colocar uma lupa sobre essa estatística. Surgiu uma força-tarefa de recenseadores para mapear as ruas e localidades onde os meninos se concentravam nas grandes cidades, e montaram-se operações de medição instantânea, com intervalo de poucas horas, para cobrir e fazer o levantamento de todas as áreas inventariadas. O pente-fino estatístico chegou ao número de cerca de 20 mil crianças de rua nas cidades brasileiras. Os outros 14.980.000 estavam apenas no imaginário dos homens de boa vontade.

Para o eleitor que anda enjoado de conversa de marketeiro, pode estar aí uma boa semente para o verdadeiro debate em 2006. Empurrando um pouquinho, talvez ele pegue no tranco.




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