Por Margareth Boarini
11/05/2006
Quebrar
paradigmas não é fácil. É como remar contra a maré, sem ter receio de enfrentar
críticas, e requer boa oratória, para responder a perguntas velhas com respostas
novas. Não há quebra de paradigma sem choque, sem tranco, sem argumentação
contundente. O consultor Ricardo Neves, com muitos anos de trabalho junto à ONU,
Banco Mundial e empresas de vários setores, propõe-se fazer o leitor "pegar no
tranco" e se voltar para a necessidade de rever antigos conceitos sobre o
Brasil.
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Editora Globo |
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Ricardo Neves: A maior mobilidade social é exemplo de
mudança que não entra com a cor certa no retrato do Brasil
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"O Brasil é hoje um copo pela
metade: meio cheio para uns e meio vazio para outros", diz o autor de "Pegando
no Tranco - O Brasil do Jeito que Você Nunca Pensou", empenhado em contrapor-se
à idéia de que "o Brasil é o país do futuro e sempre será". Neves quer mostrar
um outro Brasil, longe ainda dos melhores padrões econômicos e sociais, mas nem
por isso desprovido de qualidades significativas - mesmo quando feitas
comparações com países desenvolvidos.
O livro passa longe de fazer a
apologia do patriotismo. Escancara problemas, questiona estatísticas - como a
que tenta quantificar a pobreza - e, também, aponta soluções, sugere estratégias
e chama a atenção do leitor para a importância de ser mais crítico e
conscientizar-se dos avanços obtidos pelo país. Não há, portanto, apenas motivos
para lamentação. Melhor, então, é dar-se conta de que subsistem conceitos
ultrapassados, dos quais muitos até se transformaram em falácias repetidas sem
questionamento por gerações.
O autor inicia o livro atacando a tendência
de se enxergar o país pela ótica polarizada do "miserabilismo" ou do "ufanismo".
E apresenta o que define como "ladainha da miserabilidade", na qual se desfiam
questões que vão do problema da pobreza, desigualdade social e corrupção,
passando pela criminalidade, encolhimento da classe média e chegando ao mau
aproveitamento de riquezas minerais.
Em todos esses tópicos, Neves
procura provar, com números e exemplos de outros países, que nem sempre o Brasil
é o campeão, como freqüentemente se pensa, e apresenta casos em que até países
do considerado Primeiro Mundo se vêem forçados a duelar arduamente com suas
próprias mazelas nessas áreas. A diferença está justamente na atitude. Ao longo
do tempo, os brasileiros acomodaram-se na repetição da "ladainha da
miserabilidade" e até passaram a propagá-la no exterior, sem atentar para o que
houve de conquistas e para a necessidade de se investir em estratégias que
melhorem o desempenho do país ainda mais.
"Pegando no Tranco" é um livro
que tem tudo a ver com a alma brasileira, com o complexo de "vira-lata",
definido por Nelson Rodrigues, mas que pretende mostrar que "tudo está em
processo", afirma Neves. Neves não é pessimista. Tampouco otimista. Guarda
distância dos extremos. Só vai por direção única no intento de destruir
conceitos antiquados, erguidos em bases nada sólidas de dados contestáveis, para
propor a percepção de razões que permitem ver um outro Brasil, de imagem "alegre
como um gol de Pelé".
Como exemplo, cita a questão da mobilidade social,
que nunca esteve tão em alta como agora, com o avanço das classes C,D e E. "Isso
é muito positivo, é o ingresso dessas classes no mercado de consumo e no mundo
da inclusão social", afirma. Em sua opinião, a aferição do poder de consumo de
uma família é o ponto principal que deveria nortear as pesquisas que pretendem
quantificar a pobreza no país. A pergunta correta, a seu ver, não deveria estar
centrada em saber de quanto é a renda mensal, mas em se a pessoa tem ou não DVD,
videocassete, um ou dois aparelhos de TV e carro.
A partir daí, Neves
questiona a imagem de reduto de pobreza extrema que os brasileiros costumam
impingir às favelas, sem perceber que naqueles pedaços de aglomerado urbano tem
havido mudanças importantes nos últimos anos. "Em 1969, apenas 37% dos barracos
do Rio de Janeiro eram de alvenaria. Hoje, são 97%. O estereótipo da favela como
o endereço da miséria não corresponde mais à realidade", afirma Neves.
A
informalidade pode ser vista como um problema sério na economia de um país.
Neves recomenda, de todo modo, que se veja a diferença entre atividade informal
e ilícita. E sustenta que a informalidade é um mau negócio para todos,
principalmente a médio e longo prazos. "Ninguém ganha." Como solução, prega que
a "sociedade brasileira precisa tomar um choque de realidade e buscar um
tratamento prioritário e estratégico para tornar a formalização das relações
econômicas um grande comprometimento da sociedade, dos indivíduos e dos
governos". Para o autor, é preciso estar alerta, porque o que é informal tem
enormes chances de escorregar para a esfera do ilícito.
Neves sugere
duas linhas de ação: reduzir a carga tributária e simplificar a regulamentação,
sobretudo das micro, pequenas e médias empresas. "Se continuarmos a subestimar o
potencial explosivo desse problema, se formos complacentes com a informalidade,
deixaremos em breve de ser nação e passaremos a algo parecido com um grupo
mafioso, como a sociedade de Ali Babá e os quarenta ladrões".
Investir
no empreendedorismo é a recomendação de Neves. A informalidade não é um fenômeno
exclusivo do Brasil, mas do mundo todo. "Os empregos tradicionais diminuíram,
sim", diz ele. As manifestações vistas em Paris contra a proposta de nova
legislação trabalhista - que acabou sendo retirada pelo governo - explicam-se em
boa parte pela redução das oportunidades de emprego formal. No Brasil é preciso,
então, difundir a idéia de que uma alternativa é a criação do negócio próprio,
também porque aí está uma forma de criar empregos.
Empreendedores
bem-sucedidos poderão dar contribuição importante para que o Brasil repense o
lado negativo da imagem que construiu de si mesmo.
"Pegando no
Tranco" - De Ricardo Neves. Senac Rio, 200 págs., R$ 29