A favela
deixou de ser o endereço da miséria

RICARDO
NEVES
Nossos diagnósticos dos problemas da sociedade
brasileira são todos de natureza apocalíptica, na base
do câncer em metástase. Por esta razão, erramos na mão
volta e meia em eleições e buscamos profetas e
salvadores da pátria mais do que líderes que devam
trabalhar uma agenda de prioridades. E daí que aparecem
chances para demagogos e oportunistas à espreita.
Os próximos meses de 2006 serão tempos importantes
para discutirmos não apenas os nomes das pessoas que
devem ocupar a Presidência da República, governos
estaduais e demais cargos eletivos. É um tempo para
deixarmos de lado desencantos e frustrações com
políticos em geral e discutirmos, sobretudo, a
coisa-certa-a-ser-feita por aqueles que forem eleitos.
A democracia é um regime eficaz e eficiente quando o
conjunto da sociedade consegue ter clareza a respeito de
uma pauta —- uma agenda do que julga prioritário a ser
feito —- e então delega aos eleitos a responsabilidade
de implementar o que se entende como consensual. Quando
a sociedade discute ativamente propostas realistas, mais
do que ficar escolhendo entre Fulano ou Beltrano, temos
a capacidade de influenciar de maneira mais pró-ativa
nos destinos da nação.
Quero aqui dar minha contribuição neste sentido.
Neste mesmo jornal, fui entrevistado recentemente por
apresentar em meu livro “Pegando no tranco: o Brasil do
jeito que você nunca pensou” (editora Senac Rio) idéias
que são consideradas novas, polêmicas e, para muita
gente, provocativas.
O que faço nesse livro é, basicamente, procurar
chamar a atenção para o fato de que estamos, como
sociedade, respondendo perguntas novas com respostas
velhas.
Quer um exemplo? A pobreza. O nosso senso comum é
dizer que o Brasil é um país onde predominam os pobres,
indigentes e miseráveis. Na prática, o que o nosso senso
comum faz é oferecer um briefing para os
políticos, independente de partido, para que coloquem
como questão número um o combate à pobreza. Olha o Lula
quando chegou lá: tacou o Fome Zero como o seu primeiro
programa.
Ocorre que as empresas, por suas análises de mercado,
começaram a descobrir que o Brasil não é um mar de
pobreza, mas um mar de baixa renda e informalidade com
ilhotas de riqueza e ilhas, sim, de miseráveis.
De novo: ilhas de pobreza, não um mar de miseráveis.
Na prática, o que está sendo descoberto pelas empresas é
algo contra-intuitivo do ponto de vista do senso comum.
Os estudos de mercado perguntam para as pessoas o que
elas têm e o que elas compram, diferentemente dos
estudos governamentais, que perguntam para as pessoas
quanto elas ganham por mês.
Essas pesquisas de mercado revelam que, mesmo em
lugares imaginados como miseráveis, como as favelas do
Rio, São Paulo, das capitais etc., os domicílios têm
telefone celular, microondas, máquinas de lavar roupa,
aparelho de som estéreo em percentuais muito acima do
que o senso comum julgava, para não falar da presença
quase chegando a 100% de posse de geladeira e TV.
Diversas empresas como Casas Bahia se especializaram
em vender para a baixa renda, que o senso comum insiste
em chamar de pobre. A favela não é mais o endereço da
miséria. E isso estão descobrindo as grandes
multinacionais, que estão enviando os seus jovens
gerentes para morar em favelas por um período de alguns
meses para estudar os hábitos de consumo e estilo de
vida das pessoas.
O objetivo é para que esses jovens gerentes saiam de
lá com planos de negócios para as mais variadas
necessidades da população de baixa renda, de serviços
financeiros a planos de saúde, de aparelhos
eletrodomésticos a material de autoconstrução.
Economistas de governo e de instituições ligadas ao
estudo da pobreza continuam calibrando programas
assistenciais a partir da pergunta “quanto você ganha
por mês” e estimando que temos 60 milhões de miseráveis.
Não temos estes números apocalípticos.
Outras pesquisas, sobretudo da iniciativa privada,
trazem boas notícias. Temos muito menos: no máximo 16 ou
17 milhões. E para tratar estrategicamente essa pobreza
em ilhas é necessária uma focalização de raio laser; não
um holofote de megaprogramas assistencialistas,
ineficientes e que desperdiçam recursos importantes e
que, além disso, viciam perigosamente uma geração de
baixa renda tornando-a dependente de subsídio a fundo
perdido.
O grande problema é a informalidade. Essa é uma nova
pergunta que programas assistenciais não podem dar
resposta correta. Na informalidade estão 60% dos
trabalhadores brasileiros. Na informalidade estão 10
milhões de micro e pequenas empresas dentre o total de
15 milhões de empresas do Brasil.
Assim estão porque tributos são extorsivos, porque a
burocracia é complicadíssima e porque não estão claras
as vantagens que o governo dá em contrapartida. Além
disso, estão na informalidade 13 milhões dos 52 milhões
de imóveis residenciais do país que representam um
capital morto para indivíduos e para a sociedade.
A informalidade e sua irmã degenerada —- a
criminalidade —- são as novas questões que devem ir para
o topo das prioridades da sociedade nesta eleição de
2006. A informalidade, essa sim, é um câncer em
metástase que pode desestruturar as perspectivas da
sociedade brasileira nos tempos à frente.
RICARDO NEVES é escritor. E-mail:
ricardo@ricardoneves.com.br.