DOMINGO, 26 de fevereiro de 2006

 

 

ENTREVISTA: RICARDO NEVES, CONSULTOR E PESQUISADOR-Em livro, pesquisador repensa a pobreza e discute os reais empecilhos para o crescimento do Brasil

“Nossa miséria é um câncer controlado”

Curitiba – O Brasil precisa se livrar de seus mitos, para ter a real dimensão dos seus problemas e enfrentá-los sem medo. É o que pensa o consultor e pesquisador Ricardo Neves, autor de “Pegando no tranco – O Brasil do jeito que você nunca pensou” (editora Senac Rio). Em seu segundo livro, Neves vai contra a corrente do bom mocismo nacional ao desconstruir mitos como os que colocam a miséria e a desigualdade como os grandes problemas brasileiros, atestam a extinção da classe média e atribuem à pobreza como causa da violência. Com um raciocínio preciso e claro, Neves desmonta ainda a confusão numérica que se faz ao tentar se mostrar quantos são os miseráveis e pobres no país. Em mais de uma hora de conversa com a reportagem da Gazeta do Povo, Neves revela que o Brasil melhorou muito, mas precisa encarar duas grandes questões: informalidade e violência.


Gazeta do Povo – O conceito de pobreza no Brasil está equivocado? Por quê?
Ricardo Neves – A questão da quantificação pobreza no Brasil está muito mais ligada a quantidade do que a qualidade. É a mesma coisa que se você for ao médico e ele disser: olha, você está com câncer. O câncer está começando na próstata, no seio. E hoje em dia a gente sabe que os processos terapêuticos são eficazes. Quem está com câncer detectado no início, não se autodestrói em função disso. Por outro lado, se o seu médico chega e fala: o seu câncer está com metástase, espalhado.

 

A quantidade aniquila. Temos então um diagnóstico apocalíptico e portanto paralisante.

O que coloco no livro é exatamento isso. Temos no DNA do brasileiro o conceito do que o Brasil tem uma pobreza enorme. Há números (da Fundação Getúlio Vargas) que estimam em 60 milhões os pobres brasileiros. Isto está equivocado. Na passagem que eu fiz para a iniciativa privada eu passei a trabalhar com pesquisa de mercado. A pesquisa de mercado, ao contrário da pesquisa de governo, analisa não a renda, mas analisa o que as pessoas consomem. Os bens que elas têm dentro de casa. O que eu diria é o seguinte: se eu perguntar para você quanto você ganha por mês, você vai dar uma risadinha e não vai responder. Você não pergunta para as pessoas quanto elas ganham porque todo mundo subdeclara. Por outro lado, quanto maior a informalidade de um lugar mais complicado é apurar o dado renda. Porque nesse caso, você não tem um vínculo constante com o empregador que lhe permita que no final do mês você esteja ganhando x. Em um país em que 60% da população vive na informalidade, essa pergunta é uma não-pergunta. As pesquisas de mercado perguntam se você tem carro, se você tem DVD, plano de saúde, se vai na academia, se você tem diarista. E a partir disso aí, você estima aproximadamente as faixas de renda que as pessoas estão. Esse é o ovo de colombo. Quando eu trabalhava para as Nações Unidas, a pergunta era renda. Está saindo um relatório novo do Banco Mundial que continua com aquela história de que nós na América Latina perdemos mais uma década e que não tem jeito, não conseguimos acabar com a pobreza. Isto está errado. O que eles não percebem, é que nós não temos mais um mar de pobreza. Temos um mar de baixa renda cercada por ilhas de pobreza. O tratamento para aliviar e erradicar a pobreza do ponto de vista de políticas públicas não é terapia para ser feita como um canhão. É como comparar um canhão com um laser. Nossa pobreza é um câncer localizado, que não está em metástase.

Esse mar de pobreza tornou-se uma classe média baixa, mas emergente?
Exatamente. Estamos vencendo a guerra contra a pobreza absoluta. Quem começa a perceber isso são as empresas em suas pesquisas de mercado. Quando você começa a fazer pesquisa de mercado em favela, aqui no Rio de Janeiro por exemplo, você percebe que 14% dos domicílios em favela têm posse de carro. Começa a aparecer uma coisa que é contra-intuitiva. O que me apareceu pelas perguntas feitas por pessoas que conhecem o Brasil de fora para dentro. Em 1992, quando eu estava na favela da Maré no Rio de Janeiro, eu estava convicto que mostrava para uma delegação de empresários nigerianos, antropólogos japoneses e americanos a pobreza brasileira. Como o Brasil é mal. Como nossa elite é cruel. Eles disseram: Ricardo, isso aqui é um bairro popular. Esse tipo de pobreza existe em todo planeta. Dentro de Toronto (Canadá), no sul do Bronx (bairro nova-iorquino), em Londres.

E onde está a pobreza abjeta no Brasil?
Aí é que está. Temos que entender que essa pobreza se encontra de maneira muito localizada. Quem tem muita percepção para esse tipo de coisa são organizações que há muito tempo trabalham com questões de caridade: como o rotary e o lions por exemplo. Essas instituições têm a capacidade de procurar dentro de uma favela famílias mais pobres que a média, porque tem uma mãe com um problema mental. Muitas vezes essas questões não estão relacionadas a questões econômicas. Eles não são vítimas da miséria por si só. Tem algo mais relacionado: alcoolismo, desestruturação familiar, drogas.

Nesse sentido temos um ponto positivo que demonstra o amadurecimento de nossa democracia.

As prefeituras das grandes cidades têm de apresentar cadastros de moradores de rua, porque você passa a ter um alvo de quanto você terá que gastar. Uma coisa é você, que é meu secretário de Assistência Social, chegar e dizer: olha eu tenho muita gente que mora na rua em Curitiba. Tá, tudo bem. Mas se você não tiver um número para isso, não há dinheiro que chegue. Se você fizer um cadastro, você sabe quantificar.

O que você consideraria indispensável para se fazer o Brasil? Quais os nossos problemas reais?
Informalidade e violência.

A informalidade com seus três vetores: a laboral, produtiva e imobiliária. 60% de nossa população não paga imposto, não paga INSS. Temos 10 milhões de empresas na informalidade e temos 13 milhões de residência sem nenhum papel de posse.

Precisamos de que esse exército de formigas consumidoras, que é como eu chamo essa massa de trabalhadores informais seja incluída no Brasil.

Uma sociedade se aprimora, entra em um círculo virtuoso na medida em que um maior número de pessoa percebe que vale a pena fazer parte daquilo. O cidadão que paga impostos poderá e deverá cobrar com mais vontade de seus representantes. Por isso é necessário incluir essa massa na formalidade. Como? Simplificando o tamanho e o peso do estado, com regras claras e simples de tributação. O governo também erra o foco. Aposta no Fome Zero, quando o ideal é um choque de formalidade. Regularizar esses 13 milhões de residências garantindo saneamento básico, seria algo muito mais interessante.

O outro problema é a violência. Violência está relacionada basicamente à impunidade não a pobreza. O pobre é que fica refém do tráfico, por exemplo.

Só que os governos estaduais estão enxugando gelo ao lidar com violência. Acho que a participação do governo federal é fundamental e nossos presidentes têm se omitido. Precisamos de investimentos e tecnologias para combater a violência. Precisamos de inteligência na esfera estadual. A Polícia Federal tem sido um bom exemplo nesse sentido.

Guilherme Voitch

Perfil

Ricardo Neves é graduado em Engenharia pela PUC-RJ e mestre pelo programa de Engenharia de Produção da UFRJ.

Atua há quase duas décadas como consultor, apoiando empresas e organizações de desenvolvimento (agências da ONU, Banco Mundial), ONGs e governos em questões relacionadas a marketing, estratégia e planejamento.

Atualmente é sócio-diretor da itC Consultoria que tem como proposta ajudar seus clientes a desenvolver análises de cenários, futuros e tendências e a desenvolver estratégias corporativas e institucionais.

Lançou seu primeiro livro, “Copo pela Metade”, em 2004. Nessa obra desenvolve um painel abrangente sobre perspectivas para mercado e sociedade em geral.

Tem 49 anos, mora no Rio de Janeiro e é casado.