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Está tudo errado. Segundo o consultor brasileiro Ricardo Neves,
as idéias mais difundidas sobre pobreza, desenvolvimento e corrupção
no Brasil são falsas - e ele se dedica a combatê-las em seu
novo livro, Pegando no Tranco. A obra mereceu comparações com
o best-seller Freakonomics, dos economistas americanos Steven
Levitt e Stephen Dubner, que mostra como as percepções da opinião
pública podem ser equivocadas (por exemplo: nos Estados Unidos,
as armas matam menos crianças que as piscinas). Neves diz que
o Brasil não é pobre, são apenas os números que desaparecem
em meio à informalidade da economia. Descarta a idéia do país
como campeão da desigualdade social. Desmente a tese de que a
classe média está encolhendo. E contesta a visão da criminalidade
como fruto da miséria.
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RICARDO NEVES
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Experiência
Gestão de projetos para as Nações Unidas, Banco
Mundial e Banco Interamericano
Cargo atual
Diretor da empresa de consultoria empresarial itC
Vida pessoal
Tem 49 anos, mora no Rio e é casado. Graduado em
Engenharia pela PUC-RJ, tem mestrado pela UFRJ
Fotos: Marcos Serra Lima/EPOCA
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ÉPOCA - O Brasil não é pobre?
Ricardo Neves - Essa é uma forma obsoleta de perceber o Brasil.
A base usada para medir a pobreza é o orçamento familiar. Os
pesquisadores perguntam a um representante de cada domicílio
qual é a renda média mensal. Como mais da metade dos trabalhadores
está no mercado informal, é difícil que esse dado corresponda
à realidade. Uma diarista na zona sul do Rio de Janeiro, por
exemplo, cobra de R$ 60 a R$ 70. Se fizer quatro faxinas por semana,
ganhará cerca de R$ 1.000 por mês. Nas pesquisas de governo,
como o Censo, o Pnad e a Pesquisa de Orçamento Familiar, aparece
como desempregada.
ÉPOCA - Como se pode medir a pobreza do Brasil?
Neves - Da mesma maneira que as pesquisas de mercado fazem.
Os institutos contratados acham que o indicador renda não é
confiável. Eles preferem medir a penetração de serviços e
de bens de consumo e analisar o estilo de vida. Quando o pesquisador
bate em sua porta, não pergunta quanto você ganha. Ele pergunta
coisas que você não tem problema em responder. Por exemplo:
você tem carro? Televisão? DVD? Qual seu nível de escolaridade?
Essas perguntas permitem ao setor privado saber qual é a disponibilidade
do domicílio para comprar bens e produtos. Os institutos percebem
que as contas não fecham. Nas favelas do Rio, 14% dos domicílios
têm carro, 22% têm microondas e 48% têm lavadora de roupas.
ÉPOCA - Mas o endereço continua na favela.
Neves - Uma coisa é pobreza, outra é baixa renda. No Rio,
existe 1,8 milhão de domicílios. Desses, 300 mil estão em favelas.
Percebemos que esses domicílios não representam mais a pobreza.
Na nossa visão de classe média, olhamos para aquela alvenaria,
o tijolo à mostra, e identificamos um sinal de pobreza. Não
é assim. A primeira prioridade da pessoa de baixa renda é aumentar
a metragem quadrada. Ela é de uma primeira geração que veio
do Nordeste, passou a receber parentes, seu filho casou. A segunda
prioridade é equipar a casa com eletrodomésticos.
ÉPOCA - A pobreza então é mais aparente que real?
Neves - O que vemos na rua altera nossa percepção. A revista
Time publicou que o Brasil tinha 15 milhões de meninos morando
na rua. Em 1997, o sociólogo Betinho criou uma metodologia para
contar os menores abandonados. Ele percebeu que era preciso separar
menino que está na rua de menino que vive na rua. Também viu
que eles ficam juntos e próximos a locais onde se abastecem de
comida. Ele aplicou esse método no Rio e chegou à conclusão
de que havia menos de mil meninos de rua. Outras prefeituras fizeram
o mesmo e chegou-se à conclusão de que não havia mais de 20
mil crianças de rua no Brasil.
ÉPOCA - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse certa
vez que o Brasil não é pobre, é desigual.
Neves - Isso também é falso, por conta da metodologia utilizada
pela ONU. Para começar, índices diferentes de anos diferentes
são misturados. São avaliados dados de renda - que têm o problema
da informação falsa - e dados de consumo. É juntar abacaxi
com laranja. Além disso, o Brasil apresenta índices recentes,
mas as informações de Serra Leoa, um dos poucos países que
estão atrás de nós, são de 1989. Por último, as realidades
dos países são completamente diferentes. Serra Leoa tem 61%
das pessoas na zona rural. Como pode ser comparado ao Brasil?
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Ana Branco/Ag. O Globo
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'Vemos o Brasil de
forma obsoleta. Achamos que a pobreza, a desigualdade e
a corrupção são problemas graves. Mas as questões mudaram'
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ÉPOCA - Qual é então o grande problema brasileiro?
Neves - Assim como a inflação foi nosso dragão tempos atrás,
a informalidade é nosso câncer que está entrando em metástase.
A informalidade tem três eixos. O primeiro são os direitos de
propriedade. Os barracos das favelas não podem ser comercializados,
não podem ser usados para conseguir crédito. O segundo é o
trabalho. Estima-se que entre 55% e 60% dos trabalhadores estão
na informalidade. São pessoas que não contribuem, não pagam
INSS. A carga tributária fica concentrada nos 40% restantes da
população. O terceiro é a informalidade na cadeia produtiva.
São empresas que estão fora da lei, seja porque os tributos
são altos, seja porque a burocracia é complicada.
ÉPOCA - Por que o senhor diz que o Brasil não é um país
corrupto?
Neves - A corrupção aparece em todas as democracias. Sempre
que há transparência aparece rabo preso. Isso é um bom sinal.
No Brasil, temos rotatividade no poder. Temos também ONGs que
monitoram as contas públicas. Há liberdade de imprensa. Na crise
do mensalão vimos um trabalho exemplar dos veículos de notícia.
A Lei de Licitação Pública é de 1992. Até então, obras faraônicas
eram construídas por indicação de ministros. Há a Lei de Responsabilidade
Fiscal. Temos portais eletrônicos do governo que permitem monitorar
os empenhos do Tesouro Nacional.
ÉPOCA - E a classe média não está encolhendo?
Neves - Encolhendo, não. Mudando. Essa classe média é herdeira
da porção de Bélgica da Belíndia (mistura de Bélgica e Índia,
expressão usada na década de 70 para explicar a desigualdade
no Brasil). Ela antes tinha acesso ao sistema financeiro habitacional,
a universidades públicas, à expansão de empresas estatais cheias
de ofertas de trabalho e à indexação, que reajustava o dinheiro
nos bancos. Na década de 90, essas facilidades acabaram e a classe
média passou a ter mais gastos. É como se ela tivesse viajado
sempre de executiva e agora tivesse de andar de econômica. Em
compensação, existe uma população que era de baixa renda e
ascendeu. É gente de bairros como Nova Iguaçu, no Rio, ou São
Caetano, em São Paulo, que não estava no mapa tradicional da
classe média.
ÉPOCA - O senhor não tem uma visão muito otimista do Brasil?
Neves - Não. As perguntas mudaram. Sai a questão da pobreza,
entra a da informalidade. Existe um estatismo exagerado. O Brasil
tem 5.577 cidades. Mas os municípios viáveis estão em cerca
de dez regiões metropolitanas, que somam no máximo 300, 400
cidades. O resto vive à base de fundos de participação municipal.
É aí que temos de resgatar a semântica positiva da palavra
elite. Precisamos ser mais produtivos.
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TÍTULO
Pegando no Tranco
AUTOR
Ricardo Neves
EDITORA
Senac-Rio
PREÇO E PÁGINAS
R$ 29 / 200 |
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