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| Marcos Lima/Época |
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| Ricardo Neves , que já trabalhou como consultor da ONU e do BID, considera os números da pobreza ´apocalípticos´ |
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VULNERABILIDADE SOCIAL
Desconstruindo o conceito de pobreza
Ricardo Neves anda na contramão do pensamento nacional dominante, e se orgulha muito disso. Mas não se trata de um mero polemista: ele defende a destruição de certos mitos para que o Brasil possa enfim alcançar a real dimensão de seus problemas. Diz, por exemplo, que a miséria e a desigualdade não são os grandes problemas brasileiros e muito menos são a causa da crescente violência. “A favela não é mais o endereço da pobreza”, repete em suas entrevistas. Para ele, essa visão se deve à confusão de números “apocalípticos” divulgados por pesquisas de governos e institutos e reproduzidos pela mídia. Por conta dessa postura contrária ao senso comum, seu mais recente livro “Pegando no tranco: o Brasil do jeito que você nunca pensou” (Editora Senac Rio), mereceu comparações com o best-seller “Freakonomics”, dos economistas americanos Steven Levitt e Stephen Dubner, que mostra justamente como as percepções da opinião pública podem ser equivocadas.
Mônica Lucas
Diário do Nordeste — Você defende que as notícias sobre a pobreza são mais alarmistas do que exige a realidade?
Ricardo Neves -Certamente. Nós temos uma metodologia de avaliação da pobreza que não dá conta da realidade que estamos vivendo. As pesquisas de governo que se baseiam em renda sempre estimam a pobreza em números apocalípticos: 60 milhões, 50 milhões de brasileiros na miséria, na indigência, na fome. Por outro lado, as pesquisas de mercado são diferentes porque não perguntam às pessoas o quanto elas ganham, mas o que elas têm e o que usam... Se têm videocassete, plano de saúde, carro, o ano do carro, qual é o nível de escolaridade no domicílio. A iniciativa privada já aprendeu o que fazer para calibrar o que deve produzir e colocar no mercado. Se é uma empresa que produz ar condicionado, quer saber a penetração disso hoje no mercado e a possibilidade de as pessoas decidirem uma compra nos próximos anos.
— E os resultados dessas duas metodologias não convergem?
Neves -Não. Dessa maneira, você percebe que nas favelas do Rio de Janeiro, 14% dos domicílios já têm posse de carro, 98% têm geladeira, 48% estão com máquina de lavar. As pessoas estão tendo dinheiro para comprar isso aí. Então não se trata de fazer uma correlação entre renda e consumo, como faz a FGV (Fundação Getúlio Vargas). O Atlas da Fome (publicação da FGV) é uma análise canhestra da realidade. Eles fazem uma extrapolação da declaração de renda ou falta de renda das pessoas para dizer que estão passando fome. Não é verdade. A pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), por exemplo, detectou o contrário, que o problema do brasileiro não é subnutrição, mas obesidade. A pergunta é objetiva: metro e peso. Daí se joga numa fórmula.
— Então qual seria a real extensão da pobreza?
Neves - Os números, hoje, daqueles que trabalham com renda estimam 60 milhões, 58 milhões, 44 milhões de brasileiros. Já usando o referencial de consumo, a estimativa seria em torno de 16 milhões, sendo que pesquisadores dentro da própria FGV acreditam que 6,5 milhões estão dentro das cidades e o restante na área rural. A questão-chave é entender que “pobreza” é um nome que qualifica quase nada. Se a gente efetivamente quer políticas públicas que ajudem as pessoas realmente necessitadas, temos que começar a trabalhar com o conceito de vulnerabilidade social. Obviamente a gente vai procurar isso na cidade ou no campo.
— Como seria isso?
Neves - A gente tem que ter uma matriz de identificar onde estão aqueles que são mais velhos, os desvalidos pela idade ou problemas de doenças físicas ou mentais, alcoolismo, droga, a questão de desestabilização familiar, mulheres abandonadas pelos filhos, crianças abandonadas pelos pais, famílias cujas mães estão em grupo de risco... essa é a forma correta de se procurar. Não basta entender hoje o problema das carências sociais no Brasil usando a palavra “pobreza”. A palavra “pobreza” tornou-se muito cara aos políticos, e a sociedade brasileira continua pensando dessa maneira. É necessário a gente passar para um novo conceito, onde se entenda que devemos procurar a vulnerabilidade social. Ou seja, o que os assistentes sociais já sabem há muito mais tempo que os economistas. Só que os economistas tiveram muito mais capacidade de vocalizar sua competência por causa da inflação que vivemos nos últimos 20 anos.
— Então, diante disso, qual é a sua avaliação dos programas sociais? A maioria deles ainda está baseada no conceito de pobreza...
Neves - Acho que eles não têm foco. Eles precisam substituir, sabe? É como se na cabine de comando dos programas sociais tivéssemos que substituir a visão de economistas pela visão de assistentes sociais. Torna-se muito mais eficaz. Se olharem a população de rua, os assistentes já sabem que o número dela não tem tanta correlação com a miséria econômica. A população de rua tem mais a ver com problemas de desestabilização familiar, drogas. Claro que tem outros casos, mas raramente você vê uma família na rua. Essas famílias numa cidade como Rio de Janeiro ou São Paulo, o assistente já sabe claramente que é uma família no meio de um processo que deu errado na sua vida. Ou migraram e não encontraram seus contatos, deu tudo errado mesmo, ou já moravam lá em área favelada ocupada pelo tráfico e tiveram que se exilar.
— O que poderia ser feito nesses casos?
Neves -Nessas situações, é muito mais fácil resolver. O assistente social, se tiver uma diretriz estratégica de quem o comanda, vai intervir para resolver, seja encaminhando de volta para o lugar de onde vieram ou ajudando de forma transitória em alguma casa de acolhida. Se é uma população de rua, essas pessoas dormem na rua e estão juntas em função da auto-ajuda. Não dormem só para não sofrerem violência. Se localizam próximos de onde conseguem alimento ou recursos . Essa gente não está na favela. No caso de São Paulo, baseado nesses critérios, são 10.300 pessoas nessa situação, o que na verdade é um número baixíssimo diante do que se imagina.
— Então, se considerarmos esse critério, esses seriam os verdadeiros miseráveis do Brasil?
Neves -Sim, esses são os verdadeiros miseráveis, esses que não são ajudados com uma bolsa-família, bolsa-escola, “bolsa-qualquer coisa”. A sociedade tem que entender aqueles miseráveis, que não há o que fazer com eles a não ser ajudá-los. Por outro lado, determinadas famílias em situação em que as pessoas estão trabalhando pode se tornar perigosa se não houver contrapartida. No caso das favelas do Rio de Janeiro, eu insisto, que a pobreza não é a maior preocupação. Provavelmente as duas principais coisas a serem resolvidas por lá são a regulamentação fundiária e a segurança pública. Informalidade é o maior desafio, depois segurança.
— Com isso, você quer dizer que a violência não tem origem na pobreza? É um mito?
Neves -Violência é oriunda da impunidade. Se fosse assim, quanto menor a renda no País, maior seria a criminalidade, e isso não é verdade. A questão é que hoje o Estado brasileiro não colocou como prioridade o controle da criminalidade. Não temos um paradigma que dê conta da nova realidade, de que o crime não tem fronteiras, de que o crime está globalizado. É impossível controlar apenas a partir dos estados. Por mais eficiente que sejam só enxugarão gelo. Em estados como o Rio de Janeiro, temos também o problema de ineficiência do governo do Estado. Sem o entendimento de que o combate à criminalidade está no topo das prioridades, não vai se conseguir resultados ou progresso nos próximos anos.